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Jornal Futsal


 

Segredos de um bi-campeão



Este desafio que o Ricardo me lançou para falar de ¿como ser campeão¿ é subjectivo e difícil de transcrever para o papel, no entanto vou tentar ser o mais sintético possível para não vos saturar.
Espero que compreendam que aquilo que aqui escrevo é apenas a minha visão, de uma forma superficial, daquilo que realizei.
A minha reentrada no futsal deveu-se ao facto do treinador que o C. S. S. João tinha contratado para a época 01/02 e que tinha tudo planeado incluindo dispensas e aquisições acabou por abandonar o projecto optando por outro, deixando os directores do S. João sem ninguém, foi então que o Sr. Presidente do clube tendo sido informado que eu estava livre me contactou e conseguiu despertar em mim interesse em abraçar o projecto do clube que culminou com o título em 2002/03 e respectiva subida.
Mais do que treinar e gerir o plantel tive a difícil missão de escolher o melhor do plantel em 5 unidades e, em seguida, ser permanentemente julgado pelos adeptos que vibram com as vitórias mas não toleram as derrotas. Sem nunca perder o bom senso nem trair as minhas convicções, tentei agradar a gregos e troianos mas raramente o consegui.
Acontece que uma equipa não é um grupo de amigos que se juntam para um encontro amigável. O meu maior problema foi treinar e ter de apresentar resultados, durante a época desportiva, na qual vivi pressões constantes.
Tornou-se complicado para mim no período do Inverno motivar os atletas para treinar à chuva, ao frio e ao vento, pois não tínhamos pavilhão. Face a esta contingência sou da opinião que esta contrariedade mais uniu o plantel e deu-lhe a força necessária para a união do balneário que depois se traduziu em resultados no campo.
A aposta passou por sessões de treino com jogos diversos a criar entrosamento entre todos os atletas e uma identificação maior entre todos os jogadores e eu. Contudo, não foi só isto que nos levou ao êxito mas sim ter tido um relacionamento aberto e desprendido com os jogadores, mantendo ao mesmo tempo a disciplina nos treinos técnicos/tácticos como nos físicos e jogos, nunca perdendo a noção que os atletas antes de serem jogadores são homens, por isso algumas vezes tolerei alguns excessos que afinal não passaram de momentos breves.
Antes de cada jogo a escolha dos (13) jogadores que geralmente convocava e depois excluir (1) e ainda ter de optar pelo (5) inicial (sem nunca deixar transparecer nos treinos qual iria ser) era uma tarefa complicada, procurei sempre escolher de acordo com a minha consciência, consoante as características do adversário, que já tinha sido observado e analisado, assim escolhia os meus atletas.
Tive algumas vezes de me assumir e ser firme nas decisões contrariando aquilo que directores queriam, mas nesta minha firmeza nunca esqueci quem ficou de fora por motivos técnicos ou disciplinares, (atrasos nas chegadas às concentrações), porque para mim todos os jogadores têm de se sentir possíveis titulares, a mim competia-me respeitar as minhas ideias e gerir as diversas situações.
Foi um êxito conseguido que me encheu de muito orgulho, principalmente por aquilo que nos fizeram na época 2001/02, só foi triste que na época 2003/04 não me deixassem continuar esse trabalho. Agora com pavilhão é mais fácil cativar atletas.
Na época 03/04 depois da minha saída do S. João fui convidado para orientar a U.D. Tocha que tinha acabado de rescindir contrato com um colega e amigo de longa data.
Depois de uma conversa com os directores para saber quais os objectivos que o clube pretendia ficou decidido que o principal seria a subida à 3ª divisão o que me agradou sabendo que o clube possuía condições de treino muito boas. Tive como prioridade conhecer a personalidade dos jogadores, pois tecnicamente já os conhecia bem, depois desse trabalho em que muito contribuiu o meu adjunto (Nini que foi um homem com H) que me deu todas as informações necessárias, passei a trabalhar aquilo em que a equipa se mostrava mais carenciada:
1º mostrar uma liderança forte,
2º mentalizar os atletas que tinham condições para serem campeões para isso trabalhei muito psicologicamente dando uma mentalidade ganhadora que eles precisavam e que, felizmente, assimilaram bem.
3º Nunca cedi a pressões e ajudado pelo Nini estava sempre em cima dos acontecimentos, conseguimos aquilo me tinha sido pedido que era liderar a equipa até ao título apesar das dificuldades que os adversários nos criaram.
4º Além deste trabalho tivemos que trabalhar muito no aspecto táctico que era um dos aspectos mais sensíveis da equipa e que os jogadores menos gostavam de fazer, mas com paciência e consequente motivação pelos resultados que iam aparecendo lá se foi conseguindo atingir as metas propostas.
Conseguimos ter também um bónus que foi a conquista da Taça AFC que para mim foi um motivo especial pois já tinha disputado duas finais e tinha sido sempre derrotado mas há 3ª foi de vez.
Quero deixar aqui um agradecimento a todos os atletas que comigo trabalharam e que me deram estas vitórias assim como ao meu adjunto (Nini) pois sem o seu empenho tal não era possível, assim como agradecer a todas as equipas pelo seu empenho e desportivismo que patentearam nos jogos realizados com a nossa equipa.
Quero deixar aqui um reconhecimento público muito especial ao meu grande amigo NINI (adjunto na U. D. Tocha) desejando-lhe uma grande época desportiva 04/05 como atleta ou como treinador.
Para mim foi um privilégio, afinal qual é o treinador que não gostaria de ter conseguido o título de campeão da Divisão Honra em duas épocas consecutivas e por clubes diferentes como eu consegui?
Quero deixar aqui um pedido a todos os colegas para que sejamos uma classe mais unida para que haja mais diálogo entre nós não tenham vergonha de falar, os níveis dos treinadores nada querem dizer isso é apenas uma forma de alguns se notabilizarem, todos nós somos humanos e nenhum é dono da verdade.

João Moura
Treinador do U. Coimbra
Bi-campeão da Divisão Honra

  posted by RICARDO SANTOS @ Segunda-feira, Outubro 11, 2004


11.10.04  
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